Carlos Tavares: “Temos de colocar um pouco de juízo nos líderes políticos”
Carlos Tavares: “O que foi decidido a nível europeu foi um erro crasso”

OPINIÃO: O que fazer com a ‘investida’ chinesa à Indústria automóvel europeia?

By on 21 Abril, 2023

São enormes os desafios por que passam os construtores europeus de automóveis face aos seus congéneres chineses. Pode mesmo dizer-se que é uma ‘batalha’ muito difícil de ser vencida, ainda que não seja impossível.

Convém notar que este setor é dos que mais contribui para a economia da Europa, emprega cerca de 7% da população ativa, e gera um superávit de 79.5 bilhões de euros na balança comercial da União Europeia, mas com a China a crescer na indústria automóvel da forma que tem feito, isso vai afetar cada vez mais os europeus.

Depois do complicado período da pandemia, a indústria automóvel europeia ‘levantou-se’, voltou aos números de 2019, mas tem pela frente um desafio muito grande. Sendo os carros com motor de combustão ainda de longe os que mais dinheiro dão às marcas, a União Europeia já traçou o ano de 2035 para o fim desses motores, e mesmo contando com o que pode suceder com os combustíveis sintéticos, que vão permitir que uma percentagem de automóveis com esses motores continuem a existir, a verdade é que é nos elétricos que está a resposta para a mais rápida transição energética, e quando a isto se junta a forte concorrência da China, vai ter que haver intervenção política por parte da UE, por senão a Europa vai passar por uma crise gravíssima a este nível.

Carlos Tavares, presidente do grupo Stellantis, já alertou para a urgência da necessidade de uma resposta política aos chineses, pois os construtores chineses têm custos de produção muito mais baixos do que os europeus, devido a salários mais baixos e regulamentações ambientais muito menos rigorosas, há o problema da escala pois os construtores chineses trabalham para uma base de clientes muito maior do que os europeus, o que lhes permite investir em maiores volumes de produção e com isso oferecer preços mais competitivos.

Isto aprende-se logo no primeiro ano de Economia, nas escolas…

Há ainda a questão dos chineses estarem a investir mais em tecnologia de ponta para melhorar a qualidade e eficiência de seus veículos, mas gastam e sempre gastaram uma ínfima percentagem dos europeus em Pesquisa & Desenvolvimento, pois para os chineses sempre foi mais fácil copiar.

E ainda há as políticas governamentais, pois o governo chinês tem oferecido incentivos e apoio financeiro para o setor automóvel, e com isso, logicamente impulsiona o crescimento dos construtores chineses.

Por outro lado, as políticas governamentais na Europa, como as regulamentações ambientais são cada vez mais rígidas, e isso significa aumentar os custos para os construtores europeus e limitar ainda mais a sua capacidade de competir com os chineses.

É lógico, todos sabemos, que os construtores europeus ainda têm vantagens em áreas como qualidade de construção, design e especialmente a reputação de marca, que os ajudam a manter sua posição no mercado global de automóveis, mas eu deixo-lhe aqui uma pergunta: entre dois carros elétricos de características semelhantes, inclusive ‘vistoria’ Euro NCAP, quando vai ceder à diferença de preço se o carro europeu custar 30.000€ e o chinês 20.000€?

Carlos Tavares, CEO do grupo Stellantis já alertou para esta diferença, e não há forma dos europeus acompanharem estes preços. É impossível sem medidas políticas da UE.

Será muito difícil contrariar a indústria automóvel chinesa e isso irá levar os europeus a comprar cada vez mais carros chineses e isso significará também uma quebra brutal na produção europeia, e todos sabemos o que vem atrás disso. Menos produção, menos vendas, menos dinheiro, menos gente a construir carros europeus…

Vamos ver como tudo isto pode evoluir, mas quem de direito, está a dar os avisos certos…

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